Este ensaio assinado pelo Flavio Gomes para Grande Prêmio bem pode valer de resumo dum ano na F-1:
Se tem um clichê que detesto é o tal “fulano sentiu a pressão”. Não que não faça sentido. Quando nasce uma frase feita, ela em geral tem bom encaixe à situação original. O problema é que os clichês se desgastam. “Fulano sentiu a pressão” é um deles. Por isso, farei de tudo para evitá-lo.
Lewis Hamilton perdeu um campeonato de bobeira. Sorte dele que é jovem, talentoso, e tem muito tempo de F-1 pela frente para recuperá-lo. Mas se nunca mais lutar por um título, vai lamentar até o fim dos dias o que aconteceu nas duas provas fatais desta temporada.
A McLaren não perdeu a taça para Raikkonen por conta de seu pretenso e obsessivo tratamento igualitário aos pilotos, totalmente mal gerido. Esse tipo de má administração de egos não é inédita, afinal. Às vezes dá certo, em outras não.
Com Senna e Prost, por exemplo, funcionou.
Naqueles anos de 1988 e 1989, Ron Dennis podia lançar os dois à arena sem se preocupar demais. Um deles ganharia o campeonato, de qualquer forma. Ayrton levou no primeiro ano, Alain no segundo. A superioridade dos carros vermelho e brancos era tão grande, que o máximo que poderia acontecer era surgir um clima de mal-estar no time. E esse ambiente ruim aflorou principalmente no segundo ano. Redundou na saída do francês, que achava que Dennis protegia Senna. Como Alonso acha que Hamilton é protegido. Mas tudo bem. A McLaren levou dois títulos de pilotos e dois de construtores do mesmo jeito. Não precisou que seus pilotos trocassem afagos e sorrisos.
Mansell & Piquet na Williams em 1986, por sua vez, não deu nada certo. Os dois ficaram se pegando o ano todo, mas a equipe tinha uma rival à espreita, a mesma McLaren. No fim das contas, Prost foi o campeão. Quando se afirma que ter dois pilotos de ponta sob o mesmo teto é um erro, aquele campeonato é o mais lembrado. Só que no ano seguinte Frank Williams insistiu no que fora um erro na temporada anterior e ganhou o título com Piquet. Portanto, deu certo, também. Demorou um pouco, mas o troféu está lá na sede da equipe.
O princípio da igualdade, como descobriu Alonso, é quase uma falácia. Porque não existem dois pilotos iguais. Um sempre terá maior simpatia do chefe. Ou dos mecânicos. Ou um engenheiro mais esperto. Ou uma estratégia de corrida mais favorável. E um sempre será mais rápido que o outro. Ninguém dirige igual.
Não foi a pregação pela igualdade de Ron Dennis que tirou o título da McLaren. No máximo, o discurso gerou um ambiente ruim. E, na prática, a igualdade foi para inglês ver. Hamilton era claramente protegido na equipe. Se isso não resultava em equipamento pior para Alonso, gerava, sim, um certo desequilíbrio. Emocional, que fosse. Aqui, pode-se argumentar que se Dennis tratasse os dois do mesmo jeito, de verdade, talvez o espanhol ganhasse o título. Correndo tranqüilo, usando sua experiência, dificilmente seria batido. Mas não aconteceu, e ele disputou metade da temporada sozinho na equipe. Ganhar seria um milagre.
Mas voltando à tese inicial, nada disso, preferências, birras, antipatias, nada disso foi a causa da perda do título por Hamilton. Note-se que, pela pontuação final, a ele bastariam quatro pontos em duas corridas para levar a taça. E ele não conseguiu fazer quatro pontos, quatro míseros pontinhos. Um quinto lugar. Ou dois sétimos. Não. Fez dois.
Hamilton perdeu o título porque, em resumo, cometeu nesses dois GPs os erros que não havia cometido nas primeiras 15 etapas de seu campeonato de estréia. Na contabilidade final, claro, foi muito bem. Terminou como vice-campeão, com quatro vitórias, um ponto atrás de Raikkonen. Não é fácil passar uma temporada inteira sem fazer bobagens. Seu saldo é, evidentemente, positivo. Vejam Alonso. Se não tivesse rodado sozinho no Japão, poderia ter sido campeão. Por esse prisma, perdeu o título por erro próprio, também. Não apenas porque Ron Dennis não gosta dele.
Ocorre que Lewis, o escolhido, demonstrou em Xangai e Interlagos um nervosismo que não parecia fazer parte de sua personalidade. Na China, poderia ter parado antes para trocar o pneu, por exemplo. Mas não foi nem a borracha na lona que o jogou na brita na entrada dos boxes. Fosse isso, teria rodado antes, em velocidades muito maiores. Foi bobeada, mesmo.
Idem no Brasil. O primeiro erro, tentar passar Alonso na primeira volta, foi besta e desnecessário. Mas a conseqüência não foi das maiores, as posições que perdeu seriam recuperadas em poucas voltas.
Apertar o botão de “neutral” no meio da curva, porém, não deu margem a recuperação. Hamilton estava com os nervos à flor da pele em Interlagos, essa é a verdade.
Acho que sentiu a pressão.
chúzame -
En: Brasil, Racing por Roberto Brenlla
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